A Dama de Ferro passa pela maior renovação dos últimos 40 anos, enquanto uma onda de calor sem precedentes desafia a experiência dos milhões de turistas que visitam o monumento mais icônico de Paris.
A maior reforma em quatro décadas chega ao fim
A maior reforma em quatro décadas chega ao fimA Torre Eiffel está passando por um momento histórico. A campanha de renovação iniciada em 2019, que inclui uma extensa operação de pintura, está finalmente chegando ao fim — e este ciclo de trabalhos é o mais importante dos últimos 40 anos. A conclusão está prevista para 2026 com a pintura da face interna da Dama de Ferro, conforme anunciou Jean-François Martins, presidente da Sociedade de Exploração da Torre Eiffel (SETE), que pertence à prefeitura de Paris.
O projeto foi monumental em todos os sentidos. A vigésima campanha de pintura em 136 anos de história do monumento foi descrita por Martins como “dantesca”, afetada especialmente pela pandemia de covid-19 e pela evolução das normas sobre o chumbo. Pela primeira vez, a estrutura passou por um processo de decapamento de parte de seu metal. O custo total da reforma impressiona: apenas a renovação do elevador do pilar norte, reaberto em janeiro, custou 58 milhões de euros, enquanto a maior parte da campanha de pintura demandou ao menos 80 milhões de euros.
A nova cor da Dama de Ferro
A escolha da cor foi um dos capítulos mais comentados da reforma. A Torre Eiffel, que em sua construção inicial para a Exposição Universal de 1889 era pintada de “vermelho Veneza”, agora exibe um tom amarelo-acastanhado. A decisão não foi aleatória: a cor foi escolhida por Gustave Eiffel em 1907, quando ele já sabia que a torre permaneceria na paisagem parisiense. “A Torre Eiffel voltou ao amarelo-acastanhado, uma cor escolhida por Gustave Eiffel em 1907 para o monumento. Um tom que irradiará por muitos anos sobre a cidade de Paris”, destaca o site oficial do monumento.
A pintura não é apenas uma questão estética — é uma necessidade estrutural. A Torre Eiffel é construída em ferro pudlado, um material de longevidade quase eterna, desde que seja repintado regularmente. A ferrugem e a poluição inerentes a uma grande cidade podem colocar o metal em risco, e foi o próprio Gustave Eiffel quem estabeleceu o princípio: “É impossível insistir o suficiente no princípio de que a pintura é o elemento essencial para a conservação de uma estrutura metálica, e que os cuidados dedicados a ela são a única garantia de sua durabilidade”.
Recorde histórico de satisfação
Apesar dos anos de obras, os visitantes nunca estiveram tão satisfeitos. Em 2024, a Torre Eiffel alcançou um “recorde histórico de satisfação” do público, segundo uma pesquisa da empresa Test. O índice de satisfação saltou de 81% em 2019 para 96% em 2024, com base em mais de 21 mil questionários coletados na saída do monumento. São 15 pontos percentuais de melhora desde o período da pandemia.
A frequência de visitantes se manteve estável em 2024, com 6,3 milhões de pessoas subindo ao monumento — o mesmo número registrado em 2023. A Torre Eiffel ocupa atualmente a terceira posição entre os monumentos pagos mais visitados da França, atrás apenas do Palácio de Versalhes (mais de 8 milhões) e do Museu do Louvre (mais de 7 milhões).
Os visitantes vêm de 150 países diferentes. A maioria é francesa (19,6%), seguida por americanos (13,7%) — um mercado que cresceu de forma significativa, especialmente durante os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Paris 2024. Entre os europeus, o trio de cabeça permanece inalterado: Alemanha em primeiro (7,6%), seguida pelo Reino Unido (7,2%) e Espanha (5%).
O legado olímpico na Torre Eiffel
Os Jogos Olímpicos de Paris 2024 deixaram marcas profundas no monumento. Durante o evento, os cinco anéis olímpicos foram instalados entre o primeiro e o segundo andar da torre, e a prefeita de Paris, Anne Hidalgo, anunciou que eles permanecerão no local pelo menos até os Jogos de Los Angeles em 2028. “A proposta que eu fiz é que até 2028 deixemos os anéis na Torre Eiffel”, declarou Hidalgo, acrescentando que “talvez” eles fiquem por mais tempo.
A decisão gerou polêmica. Uma petição foi lançada para se opor à conservação dos anéis no monumento, com os signatários argumentando que “uma vez passado o tempo da festa, nosso monumento emblemático deve recuperar sua natureza”. A petição já havia recolhido mais de 39 mil assinaturas.
Outra herança olímpica igualmente simbólica: as medalhas dos Jogos de Paris 2024 trouxeram no centro um pedaço original da Torre Eiffel. Uma peça hexagonal de ferro polido da obra de Gustave Eiffel foi incorporada a cada medalha olímpica e paralímpica, criando uma conexão profunda entre o objeto mais desejado pelos atletas e o monumento mais icônico da França. Os pódios das competições também foram inspirados na estrutura metálica da torre.
Os desafios do calor extremo em 2026
O verão de 2026 trouxe um desafio inesperado para a Dama de Ferro e seus visitantes. Uma onda de calor histórica, com temperaturas que podem chegar a 44°C em Paris, forçou o fechamento antecipado do monumento. No dia 23 de junho, a Torre Eiffel encerrou excepcionalmente às 16h (horário local), e os visitantes com ingressos foram automaticamente reembolsados.
A decisão deixou muitos turistas desapontados. A norte-americana Tamara Dancer contou que havia reservado ingressos com dois meses de antecedência e teve a visita cancelada de última hora. Outros turistas mostraram resiliência: “Não vamos deixar que isso nos pare. Ainda temos de ver todos os locais de interesse”, disseram as visitantes Carlene e Carol, da Califórnia.
O calor extremo que afeta a França e grande parte da Europa é descrito como “mortífero”, com temperaturas perturbando o cotidiano, obrigando ao fechamento de escolas e à supressão de comboios. A Météo France prevê que os termômetros podem chegar a até 43°C em algumas partes do oeste da França. Além disso, a onda de calor já provocou 40 mortes por afogamento desde 18 de junho na França, “principalmente de jovens”, segundo o governo. O primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, convocou uma reunião de emergência sobre a situação.
Para quem planeja visitar a torre durante períodos de calor intenso, o site oficial recomenda proteger-se do sol, manter-se hidratado e utilizar os bebedouros disponíveis nos caminhos que conduzem ao largo em frente à entrada.
Fechamento do topo no início de 2026
Antes mesmo da onda de calor, os visitantes do início de 2026 já haviam enfrentado outro obstáculo: o topo da Torre Eiffel esteve fechado ao público de 5 de janeiro a 6 de fevereiro de 2026 para obras de renovação e manutenção. O fechamento anual é necessário porque, a 300 metros de altitude, os ventos são mais violentos e as intempéries podem danificar o local. Durante esse período, os turistas tiveram que se contentar com a visita ao segundo andar — onde ficam o terraço do primeiro andar, o lendário restaurante Le Jules Verne e o bar de macarons. O topo foi reaberto em 7 de fevereiro de 2026.
Os números que impressionam
A Torre Eiffel é um monumento de proporções colossais. Com 330 metros de altura, ela foi erguida em tempo recorde: dois anos, dois meses e cinco dias. Sua estrutura utiliza 7.300 toneladas de ferro, 60 toneladas de tinta e 2,5 milhões de rebites. Inaugurada em 31 de março de 1889 para a Exposição Universal de Paris, em comemoração ao centenário da Revolução Francesa, a torre foi inicialmente projetada para durar apenas 20 anos.
Sua sobrevivência se deve, em grande parte, à visão de Gustave Eiffel, que demonstrou sua utilidade científica. A torre serviu como estação meteorológica e laboratório para experimentos sobre aerodinâmica, e também deve sua permanência ao TSF, o precursor do rádio — já em 1913, era possível enviar mensagens para os Estados Unidos a partir da torre.
Curiosidades que poucos conhecem
A história da Torre Eiffel é repleta de fatos fascinantes. Antes de Paris sediar a torre, a Filadélfia tinha planos de construir uma estrutura similar de 300 metros — mas foi a França que levou a ideia adiante. Quando os alicerces foram lançados, os críticos foram implacáveis: o poeta Paul Verlaine a comparou a um “esqueleto de um campanário”, e o escritor Léon Bloy a chamou de “um poste de luz verdadeiramente trágico”. Com o sucesso da Exposição Universal — que atraiu quase 2 milhões de visitantes — as críticas se enfraqueceram.
O primeiro cartão postal ilustrado francês foi lançado da própria Torre Eiffel, com sua efígie estampada. O “Libonis”, que leva o nome de seu autor, foi impresso no primeiro andar da torre, onde funcionava uma agência dos correios. A tiragem inicial de 300 mil exemplares ajudou a lançar a moda dos cartões postais.
Os elevadores da torre também têm sua história. Embora os primeiros visitantes tivessem que subir os 1.710 degraus originais, logo foram instalados elevadores — modelos exclusivos, dois dos quais ainda estão em uso. O princípio da operação hidráulica foi mantido durante o trabalho de renovação concluído em 2014.
O que muda para os visitantes em 2026
Para quem planeja visitar a Torre Eiffel em 2026, há novidades importantes. A partir de 29 de setembro de 2026, o procedimento para recebimento de grupos será alterado. Qualquer grupo com mais de 9 pessoas, incluindo o guia, deverá obrigatoriamente reservar os ingressos online através do ticketpro.toureiffel.paris — não será permitida a compra na bilheteria.
Os preços dos ingressos variam de 14,80 a 36,70 euros para adultos e de 3,80 a 18,40 euros para crianças e jovens. Os valores mais vantajosos são garantidos no site oficial. O monumento funciona diariamente, com horário de abertura das 9h30 às 23h. A reserva antecipada é fortemente recomendada — especialmente para o topo, cujos ingressos são os mais disputados.
O site oficial da Torre Eiffel também emitiu um alerta importante: sites fraudulentos que se passam por oficiais aparecem em destaque nos mecanismos de busca e interfaces de IA. Recomenda-se extremo cuidado ao comprar ingressos online e sempre verificar se está no site oficial.
A Dama de Ferro e o futuro
Com a conclusão da maior reforma em 40 anos, a Torre Eiffel se prepara para entrar em uma nova era. O monumento que já foi repintado 20 vezes ao longo de 136 anos — em média a cada sete anos — agora ostenta uma cor que remete à escolha original de seu criador. A satisfação dos visitantes atingiu níveis recordes, e a torre continua sendo um dos destinos turísticos mais procurados do mundo.
O futuro reserva novos desafios. As mudanças climáticas, com ondas de calor cada vez mais frequentes e intensas, podem exigir adaptações na operação do monumento. Os anéis olímpicos, que devem permanecer na torre até 2028, continuam sendo tema de debate entre moradores e turistas. E o recorde de 6,3 milhões de visitantes anuais pode ser superado nos próximos anos, especialmente com a nova imagem da Dama de Ferro e a conclusão das obras que durante anos limitaram o acesso a algumas áreas.
Uma coisa é certa: a Torre Eiffel, que já foi chamada de “esqueleto de campanário” e quase foi desmontada, segue firme como o símbolo máximo de Paris — e do próprio espírito francês. Como bem resumiu o poeta Théodore de Banville em seus versos: “Torre Eiffel, cresce, sobe ainda mais / Na luz e na aurora, nos éteres silenciosos”. E ela continua subindo — agora mais bonita, mais bem preservada e mais amada do que nunca.


