Guerra entre EUA e Irã completa meio ano sem fim à vista, enquanto Israel intensifica ataques na Palestina e no Líbano, e o Iêmen volta a flertar com uma guerra civil em larga escala.
Por Redação
30 de agosto de 2026
O Oriente Médio amanheceu neste domingo (30) sob o signo da incerteza. Seis meses após o início da ofensiva conjunta dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, a região não apenas não encontrou um caminho para a paz como viu o conflito se expandir para múltiplas frentes, transformando-se em uma crise humanitária e econômica de proporções globais. O que começou como uma operação militar pontual, anunciada por Washington como um golpe rápido contra o regime de Teerã, evoluiu para uma guerra híbrida que combina bombardeios, bloqueios navais, sanções econômicas e uma crescente instabilidade que se espalha do Golfo Pérsico ao Mar Vermelho.
A data é marcada por declarações de peso. O líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, que sucedeu o pai, Ali Khamenei, morto exatamente no primeiro dia dos ataques, em 28 de fevereiro, convocou as nações muçulmanas a se unirem contra os Estados Unidos e Israel. Em uma mensagem escrita divulgada neste domingo, Khamenei classificou Washington e Tel Aviv como “inimigos de todos, e não apenas do Irã”. O apelo à união do mundo islâmico, no entanto, chega em um momento em que as relações de Teerã com seus vizinhos árabes — Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Jordânia, Kuwait, Catar e Bahrein — encontram-se no ponto mais baixo em décadas, deterioradas pelos ataques iranianos a aliados de Washington na região.
Enquanto isso, o presidente Donald Trump, em declaração na véspera, deixou claro que não há pressa para encerrar as hostilidades. O chefe da Casa Branca afirmou que os Estados Unidos “não estabelecem um prazo” para o fim do conflito com o Irã e que continuarão a aumentar a pressão militar e econômica sobre Teerã. A declaração de Trump, que contraria as expectativas iniciais de uma campanha relâmpago, confirmou o que analistas já apontavam: a guerra no coração petrolífero do Oriente Médio veio para ficar.
Seis meses de guerra: de “vitória rápida” ao atoleiro
No dia 28 de fevereiro de 2026, os EUA e Israel lançaram ataques coordenados contra Teerã e outras cidades iranianas. O objetivo declarado era “dobrar o regime iraniano” e forçá-lo a capitular. Seis meses depois, esse objetivo não foi alcançado.
Uma reportagem do New York Times publicada na última sexta-feira (28) não poupou críticas à estratégia americana. “É difícil disfarçar o que claramente foi um fracasso norte-americano em dobrar o Irã à sua vontade”, afirmou o jornal. Segundo a publicação, a República Islâmica não apenas sobreviveu à ofensiva inicial como conseguiu restaurar parte de sua infraestrutura militar, incluindo lançadores de mísseis, e passou a atingir aliados de Washington e bases americanas na região.
“A guerra falhou em cumprir os objetivos dos Estados Unidos”, resumiu Sanam Vakil, diretora do Programa do Oriente Médio e Norte da África do Chatham House. Suzanne Maloney, vice-presidente de política externa do Brookings Institution, foi ainda mais incisiva: “Causamos muito dano ao Irã, mas eles saíram mais fortes do que antes”.
O conflito, que muitos acreditavam que se encerraria em poucas semanas, transformou-se em uma “guerra econômica”. Segundo a especialista em Direito Internacional Priscila Caneparo, em entrevista à CNN Brasil, a guerra deixou de ser propriamente militar para se tornar uma disputa pelo controle da economia mundial. O epicentro dessa nova fase é o Estreito de Ormuz, por onde passava cerca de 20% de toda a produção mundial de petróleo antes do conflito.
O Estreito de Ormuz e o fantasma da crise energética
O bloqueio do Estreito de Ormuz pelo Irã, em retaliação à ofensiva americano-israelense, tornou-se o ponto nevrálgico da crise. As negociações para reabrir a passagem, vital para o transporte de energia global, seguem estagnadas. O Irã apresentou uma lista de condições para restabelecer o tráfego, mas os EUA mostram-se inflexíveis.
O impacto nos mercados foi imediato e devastador. O preço do petróleo tornou-se 22% mais alto do que antes da guerra, saltando de US$ 72,48 para US$ 88,58 por barril no dia 28 de agosto, após atingir picos de US$ 120,88 em abril. Na última semana, os preços acumularam queda de 4% a 5%, principalmente após relatos de que Omã e o Irã pretendem negociar uma nova rota marítima alternativa ao Estreito. No entanto, a insegurança persiste.
O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, já havia alertado em março que qualquer escalada adicional no Oriente Médio poderia provocar uma crise energética duradoura e exigiu a abertura do Estreito de Ormuz. O temor de uma escassez global de energia mantém os governos europeus e asiáticos em estado de alerta, enquanto buscam alternativas para diversificar suas fontes de abastecimento.
Golfo Pérsico: os aliados americanos na linha de fogo
Os países do Golfo Pérsico, aliados tradicionais dos Estados Unidos, pagam um preço alto pela guerra que não pediram. As refinarias da Arábia Saudita foram atingidas, a infraestrutura reluzente dos Emirados Árabes Unidos sofreu danos, e as instalações de processamento de gás do Catar não escaparam ilesas.
Segundo reportagem da emissora alemã Tagesschau, os países do Golfo, que antes da guerra tentaram mediar um acordo para evitá-la, viram-se arrastados para o conflito contra sua vontade. “Há uma coisa que os países da região reconhecem cada vez mais: os problemas da região devem ser resolvidos por meio de diálogo entre os países da região e em nenhum outro lugar. Pois a decisão unilateral de guerra dos Estados Unidos e de Israel mergulhou a região no caos”, afirmou Abdullah al-Otaibi, da Universidade do Catar.
A confiança na garantia de segurança fornecida pelos Estados Unidos, que mantém bases militares na região há décadas, está em frangalhos. “Os EUA estão se retirando. De muitas maneiras, os Estados do Golfo enfrentam o mesmo problema que a Otan e os parceiros europeus: não se pode mais confiar nos Estados Unidos e é preciso construir mais autonomia”, explicou Andreas Krieg, professor do King’s College London.
China e Rússia, que apoiam o Irã no conflito, não são vistas como parceiros confiáveis para substituir a presença americana. Os europeus, por sua vez, estão ocupados em lidar com o próprio retrocesso dos EUA no continente. Resta aos países do Golfo a opção de se cuidarem sozinhos. A Arábia Saudita, por exemplo, já começou a formar uma aliança militar no Mar Vermelho.
Gaza: a trégua que nunca existiu
Embora um cessar-fogo patrocinado pelos Estados Unidos tenha interrompido os principais confrontos em Gaza em outubro de 2025, os ataques israelenses não cessaram. No sábado (29) e no domingo (30), Israel realizou novos ataques aéreos contra a Faixa de Gaza.
No sábado, um ataque aéreo israelense atingiu parte do complexo do Hospital Shuhada al-Aqsa, no centro da Faixa de Gaza. Segundo fontes palestinas, um drone israelense disparou dois mísseis contra o depósito de medicamentos do hospital, em Deir al-Balah, ferindo três pessoas. O exército israelense afirmou que o alvo era um comandante do Hamas que planejava ataques contra soldados israelenses e trabalhava para reconstruir as capacidades militares do grupo.
No domingo, um agricultor palestino foi morto por um ataque de drone israelense enquanto trabalhava em suas terras, a leste de Deir al-Balah. Além disso, um palestino foi morto e outros dois feridos por bombardeios e disparos de forças israelenses no norte e no sul da Faixa de Gaza.
O Hamas acusa Israel de violar repetidamente a trégua. Os números são estarrecedores: desde outubro de 2023, os ataques israelenses já mataram pelo menos 73.449 palestinos em Gaza e feriram 174.472, de acordo com as autoridades de saúde locais.
Líbano: uma nova frente de destruição
O Líbano tornou-se uma nova e sangrenta frente no conflito. Desde 2 de março de 2026, Israel intensificou sua agressão contra o país, atacando vilarejos, cidades e infraestrutura civil. O saldo é catastrófico: 4.352 mortos e 12.318 feridos, além de mais de um milhão de deslocados.
No domingo (30), o exército israelense demoliu uma residência de idosos na localidade de Houla, no sul do Líbano, em meio a novas explosões e bombardeios contra várias zonas do país. As forças israelenses também incendiaram casas em Beit Yahoun e bombardearam as cercanias de várias outras localidades.
A ofensiva israelense ocorre apesar de um acordo alcançado entre Beirute e Tel Aviv para uma retirada gradual das forças israelenses, em um processo de negociação patrocinado pelos Estados Unidos. Israel, no entanto, mantém ocupadas zonas do sul do Líbano e ampliou sua presença no território. O Hezbollah, alvo frequente dos ataques, perdeu seu líder, Sayyed Hassan Nasrallah, em um dos bombardeios.
Iêmen: o risco de uma guerra civil em grande escala
O conflito no Iêmen, que já dura mais de uma década, corre o risco de se transformar em uma guerra civil em larga escala. Segundo o enviado especial da ONU para o Iêmen, Hans Grundberg, o país enfrenta hoje um risco maior de reatar um conflito em grande escala do que em qualquer outro momento desde a trégua mediada pela ONU em 2022.
Os combates entre os rebeldes houthis, apoiados pelo Irã, e as forças do governo iemenita, apoiadas pela Arábia Saudita, se intensificaram nas últimas semanas. Os houthis atacaram posições militares nas províncias de Marib e Hadramout, ricas em petróleo e gás, matando ao menos 17 soldados. A violência se espalhou para áreas residenciais e um acampamento de refugiados perto de Marib, matando duas pessoas e ferindo 14, incluindo crianças.
A escalada no Iêmen é mais um reflexo de como a estabilidade do Oriente Médio está por um fio. O governo iemenita, em resposta, realizou ações armadas contra os houthis em várias áreas. A comunidade internacional teme que o país, já devastado por anos de guerra, mergulhe novamente em um conflito de proporções ainda mais devastadoras.
Síria: os reflexos de uma guerra regional
A Síria, que tentava se reconstruir após mais de uma década de guerra civil, também sente os reflexos da escalada regional. A ONU alertou que as hostilidades regionais estão ameaçando a “frágil” transição síria.
Mais de 140.000 pessoas fugiram do Líbano para a Síria, a maioria delas sírios que haviam buscado refúgio no país vizinho. Os ataques aéreos israelenses no Líbano também ceifaram vidas sírias. Além disso, mísseis e drones iranianos cruzaram o espaço aéreo sírio, e Israel realizou ataques em território sírio. A situação na Síria é um lembrete sombrio de como os conflitos no Oriente Médio estão interconectados, com consequências que se espalham para além das fronteiras imediatas.
A resposta do Irã: união islâmica e resistência econômica
Diante da pressão militar e econômica, o Irã busca fortalecer sua posição internamente e no mundo islâmico. O líder supremo Mojtaba Khamenei, em sua mensagem deste domingo, pediu que as autoridades e a população iranianas deixem de lado suas diferenças e se unam na luta contra os “inimigos declarados”. Ele enfatizou que “sob nenhuma circunstância se deve permitir o surgimento de divergências” entre o povo iraniano. Na sexta-feira (28), ele já havia afirmado que “a prática de qualquer ato que comprometa a coesão social era proibida”.
Khamenei também defendeu a desdolarização gradual da economia iraniana e o aumento da produção para revitalizar a atividade econômica, após meses de bloqueio naval e décadas de sanções internacionais. O anúncio de novas sanções por parte de Washington na última segunda-feira só reforçou a determinação de Teerã em buscar alternativas ao dólar e fortalecer sua resiliência econômica.
O futuro: uma guerra sem fim à vista?
A pergunta que ecoa nos corredores do poder em Washington, Teerã, Moscou, Pequim e Bruxelas é: como termina isso? A resposta, segundo os analistas, é que não há uma resposta fácil.
O New York Times ressalta a ausência de uma definição clara dos objetivos dos Estados Unidos. “Não há uma articulação clara dos objetivos dos Estados Unidos”, afirmou Esfandyar Batmanghelidj, da Bourse & Bazaar Foundation. Sanções usadas como instrumento de coerção tendem a fracassar quando não há uma definição concreta da mudança de comportamento que se pretende obter.
Ali Vaez, diretor do projeto sobre o Irã do International Crisis Group, alerta que a estratégia econômica pode produzir exatamente a escalada militar que Washington afirma tentar evitar. “É mais provável que seja um prelúdio para uma nova escalada militar do que para uma desescalada”, advertiu.
Enquanto isso, a região continua a sangrar. O conflito no Oriente Médio, que começou como uma operação militar entre EUA, Israel e Irã, transformou-se em um incêndio de múltiplas frentes que consome Gaza, o Líbano, o Iêmen e ameaça arrastar a Síria. A economia global oscila à beira de uma crise energética, e a diplomacia parece ter perdido o fôlego.
O apelo do líder supremo do Irã à união islâmica, a recusa de Trump em estabelecer prazos, os bombardeios incessantes em Gaza e no Líbano, o espectro de uma nova guerra civil no Iêmen — todos esses são capítulos de uma mesma tragédia. E, ao completar seis meses, a guerra no Oriente Médio não mostra sinais de que terminará tão cedo. Pelo contrário, tudo indica que o pior ainda está por vir.




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[…] envolvimento de mediadores com credibilidade junto a ambas as partes — como a União Africana, a Arábia Saudita ou os Emirados Árabes Unidos — pode ser essencial. Contudo, a desconfiança mútua acumulada ao […]