New Alamein, Egito — Num momento de crescentes tensões geopolíticas globais e de uma arquitetura multilateral em transformação, os líderes africanos reuniram-se na cidade egípcia de New Alamein para enviar uma mensagem que ecoou por todo o continente: a África deve assumir o controlo do seu próprio destino. Entre os dias 2 e 4 de outubro de 2026, três eventos de alto nível — o Fórum África de Alamein, a Cimeira dos Estados Fundadores da Agência de Desenvolvimento da União Africana (AUDA-NEPAD) e a 8ª Reunião de Coordenação de Meio Ano da União Africana (UA) e das Comunidades Económicas Regionais (CERs) — convergiram numa única e poderosa declaração política: autossuficiência e unidade deixaram de ser aspirações retóricas para se tornarem imperativos estratégicos.
O presidente egípcio, Abdel Fattah El-Sisi, e o presidente angolano, João Manuel Lourenço, co-presidiram a Cimeira dos Estados Fundadores da AUDA-NEPAD, um encontro que reuniu os cinco países fundadores — Egito, Argélia, Nigéria, Senegal e África do Sul — juntamente com o presidente do Burundi, Évariste Ndayishimiye, atual presidente da União Africana. O tom foi de urgência e determinação.
“Já não é suficiente coordenar as nossas posições; as nossas capacidades devem ser integradas, e devemos forjar o nosso futuro através de esforços conjuntos”, declarou El-Sisi na sessão de abertura da 8ª Reunião de Coordenação de Meio Ano da UA. O líder egípcio foi ainda mais longe ao afirmar que “o continente que possui estes recursos, riqueza e potencial humano não deve permanecer uma mera fonte de matérias-primas e depois reimportá-las do exterior como produtos acabados”.
Esta não foi uma cimeira isolada. Foi a mais recente expressão de uma tendência que tem vindo a consolidar-se em todo o continente: a de que a África precisa de romper com séculos de dependência estrutural e afirmar-se como um ator soberano no sistema internacional. E, mais importante ainda, de que esta mudança não depende de parceiros externos, mas da capacidade dos próprios africanos de se unirem em torno de objetivos comuns.
O contexto de uma cimeira decisiva
Os eventos de New Alamein ocorreram num momento particularmente delicado para o continente. A nível interno, a África enfrenta uma miríade de desafios interligados: desde conflitos armados e instabilidade política em várias regiões, até crises económicas profundas alimentadas por uma dívida externa insustentável e pela volatilidade dos preços das matérias-primas. A nível externo, a fragmentação da ordem multilateral, a competição entre grandes potências pelo acesso aos recursos naturais africanos e a persistência de práticas comerciais desiguais colocam pressões adicionais sobre os frágeis sistemas económicos nacionais.
O presidente El-Sisi foi explícito ao identificar estes desafios como estando “para além da capacidade de qualquer Estado individual de os enfrentar sozinho”. E foi igualmente claro ao apontar uma das principais causas da vulnerabilidade africana: a interferência externa nos assuntos internos dos países africanos. Reafirmando a oposição do Egito a qualquer ingerência externa, El-Sisi sublinhou a necessidade de “pleno respeito pela sua soberania, unidade e integridade territorial”.
Esta posição não é exclusiva do Egito. Reflete uma preocupação generalizada em todo o continente, onde vários líderes têm vindo a denunciar o que consideram ser uma nova forma de colonialismo, expressa através de acordos comerciais desiguais, condicionalismos financeiros impostos por instituições internacionais e pressões diplomáticas. A resposta a esta perceção tem sido consistente: unidade e autossuficiência.
A Agenda 2063 e a nova arquitetura de desenvolvimento
O quadro político que sustenta este novo paradigma é a Agenda 2063, o plano de desenvolvimento de 50 anos da União Africana, adotado em 2013, que visa transformar o continente numa potência global através de um desenvolvimento socioeconómico inclusivo e sustentável. A cimeira de New Alamein marcou o início da implementação do segundo Plano Decenal da Agenda 2063, uma fase que os líderes africanos descreveram como crítica para a concretização dos objetivos de longo prazo.
A Declaração de Alamein, emitida no final da cimeira, colocou uma ênfase particular no setor privado africano como “motor-chave na aceleração da implementação do segundo Plano Decenal da Agenda 2063”, destacando a importância dos empresários, investidores e capital privado africanos. Esta é uma mudança significativa de paradigma: em vez de depender exclusivamente da ajuda externa ou do investimento estrangeiro, os líderes africanos estão a apostar na mobilização dos recursos internos do continente.
O presidente do Burundi e atual presidente da UA, Évariste Ndayishimiye, sublinhou a necessidade de reforçar a capacidade da AUDA-NEPAD para expandir projetos de infraestrutura e melhorar a coordenação entre as instituições africanas. O presidente senegalês, Bassirou Diomaye Faye, por seu lado, destacou os desafios persistentes que o continente ainda enfrenta: pobreza, segurança alimentar, desemprego jovem e acesso a cuidados de saúde.
O presidente angolano, João Lourenço, recordou que a AUDA-NEPAD foi criada precisamente para responder à necessidade de a África “assumir a responsabilidade de definir a sua própria agenda de desenvolvimento e determinar as suas prioridades”. Esta afirmação sintetiza o espírito da cimeira: a ideia de que o desenvolvimento africano não pode ser ditado de fora, mas deve ser concebido e implementado pelos próprios africanos.
A luta pela independência financeira
Talvez a dimensão mais concreta e urgente da autossuficiência africana seja a financeira. E aqui, os números são reveladores da dimensão do problema. A União Africana, o principal veículo de integração continental, ainda depende significativamente de financiamento externo. Em 2025, os Estados-membros contribuíram com apenas 84% do orçamento regular de 200 milhões de dólares, e os parceiros internacionais continuaram a financiar 77% do orçamento de programas. Esta dependência compromete a capacidade da organização de definir a sua própria agenda e de agir de forma independente.
O presidente da Comissão da União Africana, Mahmoud Ali Youssouf, tem sido um dos principais defensores da autonomia financeira da organização. Numa conferência de imprensa realizada em maio de 2025, apresentou uma visão transformadora que incluía instrumentos financeiros inovadores para reduzir a dependência de recursos externos. Entre as medidas propostas estão a emissão de obrigações da diáspora africana, com o objetivo de captar parte dos mais de 95 mil milhões de dólares em remessas anuais; a criação de uma taxa continental sobre o comércio eletrónico; e o estabelecimento de um Fundo Soberano da UA para garantir a estabilidade macroeconómica a longo prazo.
O presidente do Gana, John Dramani Mahama, foi igualmente vocal nesta matéria, apelando à independência financeira da União Africana e alertando que “a dependência excessiva de parceiros externos para o financiamento compromete a independência da organização”. Esta posição tem vindo a ganhar terreno entre os líderes africanos, que reconhecem que sem soberania financeira não pode haver verdadeira soberania política.
Um passo concreto neste sentido é a implementação do mecanismo de autofinanciamento da UA, que prevê a aplicação de uma taxa de 0,2% sobre as importações elegíveis, permitindo à União assegurar o seu autofinanciamento a longo prazo. Em maio de 2025, líderes africanos reuniram-se em Luanda para uma Reunião Estratégica de Alto Nível que reforçou o compromisso político com o Fundo de Desenvolvimento da União Africana (AUDF), um mecanismo soberano para financiar as prioridades do continente e reduzir a dependência de modelos externos.
A AUDA-NEPAD tem estado na vanguarda deste processo, liderando a criação do AUDF. Em outubro de 2025, a agência anunciou uma parceria para mobilizar um alvo inicial de até 1,5 mil milhões de dólares, incluindo 100 milhões para financiamento de preparação de projetos. O objetivo é claro: criar uma arquitetura financeira africana que responda às necessidades africanas, gerida por africanos.
O fardo da dívida e a necessidade de reforma
A pressão da dívida externa continua a ser um dos maiores obstáculos à autossuficiência africana. Em 2026, os países africanos enfrentam um “muro de reembolsos” que ultrapassa os 90 mil milhões de dólares em dívida externa, com o Egito, a África do Sul e a Nigéria entre os mais expostos. A agência de rating S&P Global Ratings estima que o endividamento comercial de longo prazo dos soberanos africanos classificados atingirá 155 mil milhões de dólares em 2026, elevando a dívida comercial total em circulação para mais de 1,2 biliões de dólares, ou 45% do PIB.
Mais de 20 países africanos enfrentam atualmente um risco elevado de sobre-endividamento. A situação é agravada pelas taxas de juro elevadas nos mercados internacionais e pela depreciação das moedas locais face ao dólar, que aumentam o custo real do serviço da dívida. Em 2026, as economias subsaarianas terão de afetar recursos significativos ao pagamento de juros e amortizações, em detrimento de investimentos em infraestrutura, saúde e educação.
O presidente nigeriano, Bola Ahmed Tinubu, criticou abertamente as agências de rating internacionais, acusando-as de aplicarem critérios injustos aos países africanos e de contribuírem para o aumento dos custos de financiamento. A sua posição reflete uma frustração crescente com um sistema financeiro global que, na perspetiva de muitos líderes africanos, perpetua a dependência e limita o desenvolvimento.
A solução, argumentam os líderes, passa pela criação de instituições financeiras africanas fortes e pela mobilização de poupanças internas. O AUDF, o Banco Africano de Desenvolvimento e os bancos regionais de desenvolvimento são vistos como peças-chave nesta estratégia. A meta é clara: substituir gradualmente o financiamento externo por recursos próprios, reduzindo a vulnerabilidade do continente a choques externos e a condicionalismos políticos.
Transformação local de recursos: a batalha contra a maldição das matérias-primas
Se há área onde a retórica da autossuficiência se traduz em políticas concretas é na transformação local dos recursos naturais. A África detém cerca de 30% das reservas mundiais dos minerais mais críticos, incluindo cobalto, lítio, grafite, terras raras, metais do grupo da platina, cobre, manganês e níquel. Estes minerais são essenciais para a transição energética global e para a produção de tecnologias como baterias para veículos elétricos, turbinas eólicas e painéis solares.
No entanto, durante décadas, a África exportou estas matérias-primas em bruto, sem qualquer transformação local, perdendo a oportunidade de criar valor acrescentado, empregos e capacidade industrial. O presidente El-Sisi foi taxativo ao afirmar que “o continente que possui estes recursos, riqueza e potencial humano não deve permanecer uma mera fonte de matérias-primas e depois reimportá-las do exterior como produtos acabados”.
O presidente nigeriano, Bola Ahmed Tinubu, anunciou que o seu governo tomou medidas para garantir que os minerais estratégicos sejam processados localmente antes da exportação. “Agora, ninguém pode levar metal da Nigéria sem adicionar valor. Ninguém. Passaram os dias em que se podia escavar o pó, todos os minerais, e ir”, declarou. Tinubu sublinhou que a África deve posicionar-se para beneficiar da crescente procura global de minerais críticos, afirmando que “posso produzir baterias para carros com os meus metais. Os minerais de terras raras são valiosos”.
O presidente do Gabão, Brice Clotaire Oligui Nguema, partilhou a experiência do seu país com o manganês. O Gabão detém algumas das reservas de manganês de mais alto grau do mundo, mas exportou o mineral em bruto durante décadas. “Temos o manganês de mais alto grau do mundo. E produzimos manganês há 60 anos. No entanto, nunca foi processado aqui”, lamentou. Nguema anunciou que as empresas que operam no setor têm até 2029 para começar a processar localmente, sob pena de perderem as suas licenças.
Esta mudança de política não é isenta de riscos. A transformação local exige investimentos significativos em infraestrutura, energia e capital humano, bem como a criação de um ambiente regulatório estável e atrativo para o investimento. No entanto, os líderes africanos parecem determinados a avançar, conscientes de que a alternativa — continuar a exportar matérias-primas e importar produtos acabados — perpetua a dependência e a pobreza.
O Banco Africano de Desenvolvimento tem desempenhado um papel ativo neste domínio, promovendo a utilização dos minerais críticos africanos como alavanca para a industrialização e a transformação económica. A visão é criar cadeias de valor regionais integradas, que permitam à África capturar uma parte maior do valor gerado pelos seus recursos naturais.
A ZCLCA como motor da integração
Nenhuma discussão sobre autossuficiência africana estaria completa sem referência à Zona de Comércio Livre Continental Africana (ZCLCA). Este acordo, que cria um mercado único de mais de 1,5 mil milhões de pessoas, é um dos projetos mais transformadores do continente. A Comissão Económica para a África (ECA) prevê que a plena implementação do acordo poderá impulsionar o comércio intra-africano em 45% até 2045. Outras estimativas apontam para um potencial de crescimento do comércio intra-africano de 52,3% através da liberalização tarifária.
O comércio intra-africano continua a ser um motor fundamental da integração económica e do desenvolvimento sustentável. No entanto, persistem obstáculos significativos, incluindo barreiras não-tarifárias, deficientes infraestruturas de transporte e logística, e a falta de harmonização regulatória entre os países. O Mecanismo Online para as Barreiras Não-Tarifárias da ZCLCA registou 1.911 utilizadores no final de janeiro de 2026, um sinal de que as empresas africanas estão cada vez mais conscientes das oportunidades e dos desafios do comércio continental.
Angola, por exemplo, aprovou uma Estratégia Nacional de Implementação e Plano de Ação para a ZCLCA, elaborada entre setembro de 2025 e março de 2026, que prioriza setores geradores de receitas de exportação e ligações à montante na economia nacional. A estratégia reconhece que a localização geográfica de Angola a posiciona favoravelmente para beneficiar do aumento do comércio intra-africano.
O presidente Tinubu foi enfático ao afirmar que “a África precisa de pôr o seu dinheiro onde está a sua boca” e que o acordo de comércio continental “não deve ser deixado na prancheta de desenho, mas deve ser ativado adequadamente”. A sua mensagem foi clara: os países africanos devem mover-se para além de abordagens fragmentadas e trabalhar em conjunto para negociar a partir de uma posição de força.
O presidente do Gabão, Nguema, apelou a uma maior unidade, afirmando que “os países africanos precisam de estar unidos para falar a uma só voz e mutualizar esforços por uma África vencedora”. Comparando com a Europa, Nguema apontou exemplos como o euro, o sistema Schengen e estruturas industriais partilhadas como evidência do que uma política económica coordenada pode alcançar. “As alianças económicas são ferramentas de poder. E nós, em África, também temos as nossas alianças económicas para sermos um continente poderoso”, afirmou.
A renovação do pan-africanismo
A cimeira de New Alamein não foi apenas sobre políticas económicas. Foi também uma reafirmação dos ideais pan-africanistas que inspiraram os movimentos de libertação do continente. Em setembro de 2026, a União Africana celebrou o seu 24º aniversário com um apelo renovado ao compromisso com os ideais do pan-africanismo, solidariedade e unidade continental.
O presidente da Comissão da UA, Mahmoud Ali Youssouf, tem sido um defensor incansável desta visão. Num encontro com a imprensa em maio de 2025, delineou um roteiro para o desenvolvimento de África assente na paz, autossuficiência e crescimento inclusivo, sublinhando que “a África deve definir o seu próprio caminho e afirmar o seu lugar numa ordem global em evolução”. Youssouf apelou a “unidade, disciplina e liderança ousada”, afirmando que o continente não pode continuar a ser um espetador passivo nos assuntos globais.
Esta renovação do pan-africanismo não é meramente simbólica. Reflete uma consciência crescente de que os desafios que a África enfrenta — desde as alterações climáticas à segurança alimentar, da migração forçada ao terrorismo — são de tal magnitude que nenhum país, por si só, pode enfrentá-los eficazmente. A unidade não é apenas um ideal romântico; é uma necessidade prática.
O antigo presidente sul-africano Jacob Zuma, numa intervenção no Gana em agosto de 2025, recordou as palavras de Kwame Nkrumah, primeiro presidente do Gana e um dos pais do pan-africanismo: “Kwame Nkrumah disse-nos que a liberdade política sem liberdade económica é incompleta”. Zuma apelou à adoção de uma moeda única africana para fortalecer o comércio intra-continental e a soberania económica, declarando: “Uma África, uma moeda, um destino”.
Esta visão de uma união monetária africana pode parecer distante, mas reflete uma aspiração profunda de integração que tem sido um tema recorrente no discurso político africano desde os tempos das independências. E, à medida que a ZCLCA avança e as instituições financeiras africanas se fortalecem, essa aspiração pode tornar-se cada vez mais viável.
Desafios persistentes e contradições
Seria ingénuo, no entanto, ignorar os desafios e contradições que atravessam este projeto de autossuficiência e unidade. A África é um continente profundamente diverso, com 54 países, milhares de grupos étnicos e línguas, e realidades económicas e políticas extremamente variadas. A unidade na diversidade é um lema fácil de proclamar, mas difícil de concretizar.
Os conflitos armados continuam a assolar várias regiões do continente, desde o Sahel à República Democrática do Congo, passando pelo Sudão e pelo Corno de África. A cimeira de New Alamein ocorreu precisamente num momento de tensões diplomáticas acrescidas entre a Etiópia, a Eritreia e o Egito, com o encerramento da embaixada etíope em Asmara e a expulsão mútua de diplomatas. A União Africana apelou ao “máximo de contenção” face a estas tensões, mas a situação ilustra as dificuldades de manter a coesão continental face a disputas bilaterais.
Além disso, persistem divergências significativas entre os Estados-membros sobre questões fundamentais, desde a gestão de recursos hídricos transfronteiriços — como a disputa em torno da Grande Barragem do Renascimento Etíope no rio Nilo — até às abordagens à segurança regional e às relações com potências externas. O presidente El-Sisi sublinhou que a cooperação na gestão de rios transfronteiriços deve basear-se no direito internacional, consulta, coordenação e nos princípios da boa vizinhança e da não prejudicação. Mas a implementação destes princípios na prática continua a ser um desafio.
A dependência de financiamento externo é outra contradição difícil de resolver. Apesar dos apelos à autossuficiência, muitos países africanos continuam profundamente dependentes da ajuda externa, dos empréstimos de instituições financeiras internacionais e do investimento estrangeiro direto. A transição para um modelo mais autónomo exigirá não apenas vontade política, mas também tempo, recursos e uma transformação profunda das estruturas económicas e institucionais.
A dimensão da segurança e da paz
Nenhuma estratégia de desenvolvimento pode prosperar sem paz e segurança. O presidente da Comissão da UA, Youssouf, foi explícito ao afirmar que “o desenvolvimento sustentável não pode ser alcançado sem paz”, sublinhando a necessidade de reforçar os mecanismos de prevenção de conflitos, a prontidão operacional da Força Africana de Standby e os sistemas de alerta precoce para enfrentar o terrorismo e deter mudanças inconstitucionais de governo.
A arquitetura de paz e segurança da União Africana tem vindo a ser reforçada, mas continua a enfrentar limitações significativas em termos de financiamento, capacidade logística e coordenação entre os Estados-membros. A criação de uma Força Africana de Standby, capaz de intervir rapidamente em situações de crise, tem sido um objetivo de longa data, mas a sua operacionalização plena continua a ser um desafio.
A cimeira de New Alamein reconheceu que os desafios de segurança da África são cada vez mais transnacionais e complexos, incluindo terrorismo, extremismo violento, crime organizado transnacional, tráfico de seres humanos e cibercrime. Estes desafios exigem respostas coletivas e coordenadas, que só podem ser eficazes se os países africanos trabalharem em conjunto e partilharem informações e recursos.
O papel do setor privado e da juventude
Um dos aspetos mais inovadores do novo paradigma de desenvolvimento africano é o reconhecimento do papel central do setor privado. A Declaração de Alamein destacou o setor privado africano como “motor-chave” na implementação da Agenda 2063, sublinhando a importância dos empresários, investidores e capital privado africanos.
Esta ênfase no setor privado representa uma mudança significativa em relação a modelos anteriores, que tendiam a concentrar-se no papel do Estado e na ajuda externa. O presidente da Comissão da UA, Youssouf, tem promovido ativamente o empreendedorismo jovem através de iniciativas como a Lei Modelo da UA para Start-ups e a Estratégia Continental de Inteligência Artificial, destinadas a fechar a divisão digital e a promover a inovação ética e inclusiva.
A juventude africana é, simultaneamente, o maior ativo e o maior desafio do continente. Com uma população jovem em rápido crescimento, a África tem a oportunidade de colher um “dividendo demográfico” que pode impulsionar o crescimento económico e a inovação. Mas, para isso, é necessário criar empregos, investir em educação e formação profissional, e criar um ambiente que permita aos jovens realizar o seu potencial. O presidente senegalês, Bassirou Diomaye Faye, identificou o desemprego jovem como um dos desafios persistentes que a África ainda enfrenta.
A voz de África no mundo
A autossuficiência não significa isolamento. Os líderes africanos têm sublinhado repetidamente que uma África unida e autossuficiente está melhor posicionada para se envolver com o resto do mundo em termos de igualdade e respeito mútuo. O presidente da Comissão da UA tem defendido uma participação mais ativa de África no G20, promovendo reformas da arquitetura financeira global e advogando pelos interesses comerciais e de desenvolvimento do continente.
A entrada da União Africana como membro permanente do G20, um objetivo há muito acalentado, representaria um reconhecimento significativo do peso económico e político do continente no cenário global. Mas, mais importante ainda, daria à África uma plataforma para influenciar as decisões globais que afetam o seu desenvolvimento.
O presidente Youssouf tem também procurado fortalecer as parcerias estratégicas da UA, incluindo com a União Europeia, os BRICS e os países árabes, com um foco partilhado em infraestrutura, energia e desenvolvimento sustentável. A mensagem é clara: a África quer parceiros, não patronos; quer cooperação, não dependência.
Conclusão: um momento decisivo
A cimeira de New Alamein pode vir a ser recordada como um momento decisivo na história da integração africana. Num contexto global de incerteza e competição, os líderes africanos enviaram uma mensagem de determinação e unidade. Mas as declarações, por si só, não bastam. O verdadeiro teste será a implementação das políticas e a concretização dos objetivos.
A África enfrenta desafios formidáveis: dívida insustentável, dependência de matérias-primas, conflitos internos, fragilidade institucional e pressões externas. Mas também possui ativos extraordinários: recursos naturais abundantes, uma população jovem e dinâmica, uma diáspora influente e uma determinação crescente de assumir o controlo do seu destino.
A autossuficiência e a unidade não são objetivos que se alcançam da noite para o dia. São processos graduais, que exigem paciência, perseverança e, acima de tudo, liderança. Como afirmou o presidente El-Sisi, “os nossos interesses partilhados são maiores do que as nossas diferenças. Podemos alcançar o bem-estar e a prosperidade para os nossos povos quando as intenções são sinceras, o diálogo prevalece e defendemos o princípio do benefício mútuo”.
O caminho é longo e incerto. Mas a direção está clara. A África está a mover-se, com determinação renovada, em direção a um futuro em que o seu destino é definido por africanos, para africanos. E, como demonstraram os líderes reunidos em New Alamein, essa determinação é agora mais forte do que nunca.
Fontes:
• CGTN Africa. “African leaders call for self-reliance to drive development.” Outubro 2026.
• Xinhua. “African leaders urge joint action, self-reliance at gatherings in Egypt.” Outubro 2026.
• Egypt Today. “El-Sisi urges integrated African value chains, says Africa should not remain mere raw material source.” Outubro 2026.
• The New Times. “Africa must process its own minerals, say Tinubu, Nguema.” Maio 2026.
• Ethiopian Broadcasting Corporation. “We Cannot Transform a Country While Carrying Stones: PM Abiy Calls for Economic Self-Reliance, National Unity.” Maio 2026.
• African Union. “AUC Chairperson Sets Forth Transformative Vision for Africa at High-Level Media Briefing.” Maio 2025.
• S&P Global Ratings. “Sovereign Debt 2026: African Sovereigns To Borrow $155 Billion.” Março 2026.
• Agência Ecofin. “Dívida: África enfrenta um muro de reembolsos de 90 mil milhões de dólares em 2026.” Fevereiro 2026.
• African Development Bank. “África quer usar os seus minerais críticos como uma alavanca para a industrialização.” Julho 2026.
• AUDA-NEPAD. “Africa Charts Path Toward Financial Sovereignty with Proposed Continental Development Fund.” Maio 2025.
• GNA. “Zuma urges Africa to adopt single currency for economic independence.” Agosto 2025.
• ECA. “Comércio intra-africano ZCLCA.” 2026.
• União Africana. “União Africana apela ao reforço do panafricanismo e da unidade continental.” Setembro 2026.



