Conflito completa quatro anos e meio com escalada de violência; Putin reafirma que não negociará com “terroristas” enquanto Ucrânia promete intensificar ataques com drones
A guerra na Ucrânia, que completa quatro anos e meio desde o início da invasão russa em larga escala em fevereiro de 2022, atravessa um momento de profunda transformação. O que muitos analistas descrevem como uma “fase de desgaste sistémico” tem sido marcado por uma escalada sem precedentes nos ataques aéreos russos contra alvos civis, uma corrida tecnológica no campo dos drones e uma aparente paralisia diplomática, apesar dos apelos renovados da comunidade internacional.
Enquanto o presidente russo, Vladimir Putin, declarou na terça-feira, 1 de setembro, que a Rússia está a vencer no campo de batalha e que não negociará com “terroristas”, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, prometeu retaliar com uma campanha massiva de ataques com drones contra o território russo. O fosso entre as posições de Moscovo e Kiev parece mais profundo do que nunca, num momento em que o custo humano do conflito atinge níveis alarmantes: durante o primeiro semestre de 2026, as baixas civis foram 114% superiores ao mesmo período de 2024.
Frente de batalha: avanços russos limitados e perdas massivas
No terreno, a realidade contrasta com a retórica optimista de Putin. As forças russas capturaram 270 quilómetros quadrados da região de Donetsk em agosto e continuam a avançar em direção às cidades de Sloviansk e Kramatorsk. No entanto, este ganho territorial representa apenas cerca de 0,5% do território internacionalmente reconhecido da Ucrânia, um avanço que muitos analistas consideram pífio face ao esforço militar despendido.
A Rússia iniciou a primavera de 2026 com a expectativa de obter um grande avanço no campo de batalha. Seis meses depois, esse avanço não se materializou. Moscovo perdeu mais de 200.000 soldados entre a primavera e o verão, não conseguiu lançar um assalto mecanizado bem-sucedido e ganhou pouco terreno. Julho de 2026 foi o mês mais sangrento do ano em termos de baixas militares russas: 42.860 baixas, a cifra mensal mais alta desde janeiro de 2025.
As forças ucranianas, por seu lado, conseguiram libertar 745 quilómetros quadrados no sul do país. “No primeiro semestre de 2026, o exército ucraniano levou a cabo operações ofensivas no sul, libertando 745 quilómetros quadrados de território e 26 assentamentos nas regiões de Dnipropetrovsk”, confirmam fontes militares.
Os seis grandes agrupamentos russos mantêm atividade desde Sumy e Kharkiv, no norte, até Zaporizhzhia, passando pelo Donbass e os acessos à região de Dnipropetrovsk. Mas a ofensiva russa não conseguiu produzir a grande rutura operacional que muitos esperavam. “É uma luta de avanços, infiltrações, contra-ataques e desgaste cumulativo”, descreve uma análise publicada esta semana.
A nova face da guerra: drones a jato e ataques diários a Kiev
A característica mais marcante da guerra nos últimos meses tem sido a intensificação dos ataques aéreos russos, com especial destaque para a utilização massiva de uma nova geração de drones a jato. Quase 1.500 drones de todos os tipos foram lançados contra a Ucrânia em apenas quatro dias no final de agosto, sendo mais da metade modelos a jato. Cerca de 1.500 foram usados em julho e mais de 2.500 em agosto.
Estes novos drones, conhecidos como Geran-4 e Geran-5, são três vezes mais rápidos do que os Shahed originais que a Rússia adquiriu do Irão, tornando-os muito mais difíceis de intercetar. “Os ataques com drones são constantes, com muitos Shaheds a jato”, afirmou Zelensky no domingo. A Inteligência de Defesa da Ucrânia alega que estes drones contêm centenas de componentes fabricados por empresas estrangeiras, incluindo dos EUA, do Reino Unido e da China.
O objetivo do Kremlin é claro: esgotar as defesas aéreas ucranianas e minar o moral dos civis, ao mesmo tempo que amplia a sua lista de alvos para incluir armazéns, postos de gasolina, instalações postais e fábricas. A Ucrânia tenta urgentemente desenvolver interceptadores capazes de combater esta nova ameaça.
Kiev tem sido alvo de ataques de forma praticamente ininterrupta desde quinta-feira, numa campanha de bombardeamentos dirigida principalmente contra armazéns e outras empresas. Esta é a sexta sequência de dias de ataques intensos contra a capital ucraniana.
O massacre dos civis: 38 mortos num ataque a um armazém
O auge desta escalada de violência contra civis ocorreu no ataque de 30 de agosto contra um armazém a oeste de Kiev, que matou 38 pessoas – o ataque mais letal da guerra neste ano. Quatro pessoas continuam desaparecidas. Vinte pessoas ficaram feridas, incluindo duas crianças. Equipas de emergência continuam a trabalhar na região para controlar focos residuais de incêndio e neutralizar possíveis explosivos.
Na madrugada de terça-feira, 1 de setembro, novos ataques russos com mísseis e drones contra várias regiões da Ucrânia, incluindo Kiev e arredores, causaram pelo menos 12 mortos e 14 feridos. Entre as vítimas mortais encontra-se um cidadão indiano. Seis das vítimas mortais eram trabalhadores da empresa ferroviária pública ucraniana, Ukrzaliznytsia.
As infraestruturas ferroviárias estiveram entre os principais alvos dos ataques. Um ataque contra um depósito ferroviário na capital provocou sete mortos. Na cidade de Boryspil, nos arredores de Kiev, um edifício residencial de cinco andares foi atingido, obrigando à retirada de 50 pessoas. Quatro pessoas morreram e 13 ficaram feridas na cidade.
Na região de Odessa, os ataques com bombas aéreas guiadas e drones prolongam-se desde segunda-feira à noite. Milhares de famílias ficaram sem eletricidade. A empresa estatal ucraniana de energia Naftogaz informou que um ataque russo atingiu uma usina termelétrica na região. Um posto fronteiriço com a Roménia foi deliberadamente atingido, assim como infraestruturas de exportação.
A resposta ucraniana: a promessa de 1000 drones por dia
Perante esta escalada, a Ucrânia tem ripostado com ataques cada vez mais ousados no interior da Rússia. Zelensky declarou recentemente que a Ucrânia lança em média mais de 300 drones de longo alcance contra a Rússia, tendo prometido intensificar esta campanha para até 1000 ataques por dia.
O ministro russo da Defesa classificou os ataques ucranianos como uma resposta aos “ataques contínuos de Kiev contra a infraestrutura civil e o setor de combustível e energia da Rússia”. Putin reconheceu que os ataques ucranianos dentro da Rússia haviam causado danos reais e disse que os drones representavam um desafio específico. Contudo, afirmou que “não tenho dúvidas de que o inimigo entrará em colapso”.
O presidente russo descreveu a advertência de Zelensky às companhias aéreas de que os drones ucranianos fechariam efetivamente o espaço aéreo russo como “terrorismo de Estado” e rejeitou negociar “com terroristas”, embora tenha dito que Moscovo está aberta a negociações “concretas” caso fosse possível injetar um novo impulso no processo.
A dimensão humanitária: 10,8 milhões de pessoas necessitam de assistência
O impacto humanitário do conflito atingiu proporções devastadoras. Estima-se que 10,8 milhões de pessoas necessitem de assistência humanitária na Ucrânia. Mais de 3,7 milhões de pessoas estão deslocadas internamente e 5,9 milhões são refugiadas no estrangeiro. Até 31 de março de 2026, 4,33 milhões de pessoas que fugiram da Ucrânia beneficiavam de proteção temporária na União Europeia.
A ONU e os parceiros apelaram a 2,3 mil milhões de dólares para 2026 para assistir 4,1 milhões das pessoas mais vulneráveis na Ucrânia. A ONU anunciou recentemente um novo plano de resposta para o inverno na Ucrânia para apoiar 2,1 milhões de pessoas, num valor de cerca de 314 milhões de euros.
A situação humanitária é particularmente grave nas regiões da linha da frente e fronteiriças, especialmente em Dnipropetrovsk, Donetsk, Kharkiv, Kherson e Sumy, onde as hostilidades impactaram os civis e causaram extensos danos à habitação e infraestruturas críticas. Pelo menos 164.000 pessoas fugiram das áreas da linha da frente nos primeiros três meses de 2026 em busca de segurança.
Os ataques a infraestruturas civis críticas têm gerado cada vez mais necessidades humanitárias em áreas urbanas para além da linha da frente, agravadas pelas severas condições de inverno. Os danos nas instalações de energia e água têm sido particularmente significativos.
Os trabalhadores humanitários enfrentam riscos de segurança crescentes. Os incidentes envolvendo violência contra pessoal humanitário, ativos e instalações aumentaram 38% no primeiro trimestre de 2026. Os incidentes relacionados com drones mais do que duplicaram. Apesar destes desafios, os humanitários alcançaram mais de 2,2 milhões de pessoas no primeiro trimestre.
Ajuda internacional: 11 mil milhões de euros em dois meses
O apoio internacional à Ucrânia mantém-se robusto. A Europa expandiu a sua assistência à Ucrânia em maio e junho para quase 11 mil milhões de euros, segundo o Instituto Kiel para a Economia Mundial. Este montante divide-se em 4,3 mil milhões de euros para ajuda militar e 6,7 mil milhões para ajuda financeira e humanitária.
A União Europeia aprovou um empréstimo de 90 mil milhões de euros (103 mil milhões de dólares) para responder às necessidades urgentes de defesa e orçamentais da Ucrânia em 2026 e 2027. Do pacote de 90 mil milhões, 60 mil milhões estão destinados ao investimento na capacidade industrial de defesa da Ucrânia e à aquisição de produtos militares. A UE já desembolsou 3,9 mil milhões de euros para drones no âmbito deste empréstimo.
Os parceiros do formato Ramstein anunciaram 4 mil milhões de dólares em apoio, incluindo aproximadamente 1 milhão para o mecanismo Prioritised Ukraine Requirements List (PURL).
A chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, exortou os Estados-membros com mísseis interceptadores em fim de vida útil a fornecê-los à Ucrânia, afirmando que a Rússia “está a intensificar os ataques para quebrar os ucranianos”. Kallas avisou que os ataques híbridos da Rússia contra a Europa não vão dissuadir os 27 Estados-membros de continuar a apoiar a Ucrânia.
O primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, reiterou a Vladimir Putin o desejo de Nova Deli por um acordo, destacando que a guerra é um retrocesso humanitário. Putin atualizou Modi sobre o andamento da chamada “operação militar especial”.
Diplomacia paralisada: Vaticano volta de Moscovo sem avanços
Os esforços diplomáticos para pôr fim ao conflito continuam a revelar-se infrutíferos. O arcebispo Paul Richard Gallagher afirmou que a diplomacia permanece como um caminho possível para encerrar a guerra após conversas de alto nível em Moscovo não produzirem nenhum avanço concreto. “A Santa Sé não entra nos detalhes das negociações, nem propõe soluções técnicas”, afirmou.
Zelensky esteve em Bruxelas para repetir o apelo de que a União Europeia deve estar pronta para o caso de a guerra entrar em fase de negociações. O ministro dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia, Andri Sibiga, escreveu que o novo ataque contra Kiev demonstra que, ao contrário de Zelensky, que propôs um cessar-fogo e solicitou uma reunião entre os presidentes, Putin não está interessado na paz.
Sibiga apelou a novas sanções internacionais que afetem a capacidade da Rússia de continuar a produzir mísseis balísticos e instou os parceiros a destinarem os ativos russos congelados, sobretudo na União Europeia, à ajuda à Ucrânia.
O presidente da 80.ª sessão da Assembleia Geral da ONU, Annalena Baerbock, fez um apelo veemente na terça-feira: “Quatro anos e meio se passaram desde a invasão em larga escala da Ucrânia pela Federação Russa. O custo humano continua a aumentar”. A Assembleia Geral ecoou os apelos para um cessar-fogo imediato e a retirada completa das forças russas do território ucraniano.
O que esperar: um inverno de guerra total
À medida que o inverno se aproxima, a Rússia anunciou que se prepara para realizar “ataques maciços” contra a infraestrutura energética da Ucrânia. Putin confirmou que as forças de Moscovo estão a preparar-se para lançar fortes ataques contra a infraestrutura energética na Ucrânia.
A guerra entrou numa fase em que já não basta perguntar quem avança ou quem recua. “A questão decisiva começa a ser outra: que sistema será capaz de suportar durante mais tempo o desgaste simultâneo de homens, armas, indústria, economia e vontade política?”.
Com ambas as partes a intensificar os ataques, a comunidade internacional a debater-se com a fadiga da guerra e a diplomacia paralisada, o cenário para os meses que se avizinham é sombrio. Mais de 1,48 milhões de militares russos já perderam a vida ou ficaram feridos desde o início da invasão. As perdas ucranianas, embora não divulgadas oficialmente, são igualmente significativas. O conflito, que muitos esperavam que fosse breve, transformou-se numa guerra de desgaste que não mostra sinais de abrandamento.
O presidente russo, questionado sobre quando o “inimigo entraria em colapso”, recusou-se a dizer. A única certeza é que o custo humano, já tão elevado, continuará a aumentar enquanto não houver uma vontade genuína de ambas as partes para negociar.



